O homem acorda em um lugar escuro. Não faz ideia de onde está, nem como chegou até ali, mas tem certeza de estar sozinho. É impossível enxergar um palmo a sua frente e isso faz com que ele sinta medo como nunca sentira antes.
Decide começar a andar, mas isso faz o medo aumentar. O chão é irregular e em algumas partes chega a machucar seus pés. Movendo suas mãos de um lado para outro, encosta ocasionalmente em formas variadas e de texturas diferentes. Põe-se a procurar uma parede. Talvez está se movendo muito devagar, ou o lugar é muito grande, ou talvez seu pavor fez o tempo ir mais devagar, mas parece nunca chegar.
Finalmente encontra-se no que aparenta ser uma parede. Apesar de irregular também, ao passar a mão, vê que é muito mais alta e comprida que as outras formas, deduzindo que não conseguirá escalar ou dar a volta. Senta-se no chão e espera. O que exatamente ele não sabe. Sente um vento frio em seu braço. Imagina que possa ser de alguma saída, mas como não há luz, prefere não arriscar.
O tempo passa e ele começa a sentir fome. Tateia em volta para tentar encontrar algo, mas em vão. Hesita um pouco, mas começa a engatinhar procurando água ou algo que possa comer. Mais a frente encontra um filete de água escorrendo no que passou a supor serem pedras. Uma quantidade pequena, mas melhor que nada. Fica a imaginar que poderia seguir o pequeno fluxo e encontrar um rio, que possa ter algum tipo de comida em volta. Mas novamente a escuridão o apavora. Está com muito medo de escorregar, cair num buraco ou até mesmo no possível rio. Encontra algo gramado que cresce nas rochas molhadas. Sente o cheiro das substâncias antes de ingerir. Assume serem próprias pra consumo. É claro que a fome ajuda-o a tomar essa decisão.
Muito tempo passa. Ele não sabe quanto, só sabe que é bastante pois chega a dormir e acordar várias vezes.Um dia acorda e vê uma luz. É muito forte e parece fogo. Seus olhos demoram um pouco para se ajustarem à claridade. Então se aproxima e percebe que não é fogo. É uma luz branca que nunca havia visto antes. Não emite calor mas o ajuda a enxergar, o que dá-lhe grande satisfação. E é uma visão clara. Consegue distinguir quase tudo que está próximo dele.
A luz o deixa confiante para explorar o lugar que esteve sabe-se lá quanto tempo. Rapidamente percebe tratar-se de uma caverna. Uma caverna muito incomum. Um pouco acima do que assumia ser uma parede há um gramado e nele algumas árvores com frutos. O filete de água escorria até um imenso lago cristalino. Tudo aquilo o deixa maravilhado. Alimenta-se fartamente, bebe água e dorme num pedaço confortável do gramado. Dorme como não dormia a tempos.
Quando acorda, a luz ainda está lá. Então decide procurar a saída. Percorre uma distância imensa, mas a caverna nunca acaba. E incrivelmente seus recursos também não. Sempre a frente encontra novas fontes de comida, bebida e bons lugares para repousar, o que possibilita recomeçar de onde parou.
Muitos tempo passa. Muito tempo mesmo. Já se sente um pouco mais velho. Finalmente reconhece que sua vida será ali. O que não é de todo ruim, pois está com a luz em mãos. Não sente falta de ninguém, pois nunca conheceu ninguém. Na caverna, tem o que comer e beber, tem sempre um lugar quente para dormir, sem falar nas belezas infindáveis do lugar. Cristais de várias cores, formações rochosas elegantes e lagos que tinham toda a beleza do fundo revelados pela luz.
Tem a luz em mãos. A luz lhe dá todo o conforto que precisa. A luz permite que ele viva. Não imagina como pode viver sem enxergar, apesar de ter vivido por um tempo. Passa a ver a luz seu mestre e sua salvação. Quase se esquece que por um tempo viveu sem ela. Na verdade não queria viver sem a luz. A luz lhe mostrou tudo que existia. Então logo assumiu que a luz era vida. A luz era a sua vida.
"Quando o sábio aponta para as estrelas, o idiota olha para o dedo..."
Proverbio chinês
pra Todos e pra Ninguém
Escrever é como olhar no espelho. É olhar pra si mesmo sem piedade. É tornar seus defeitos claros. Mas é também aprender a se aceitar e a gostar de si mesmo. E principalmente, perceber que você é a melhor pessoa do mundo, simplesmente porque você pode mudar o tempo todo.
quarta-feira, 6 de fevereiro de 2013
quarta-feira, 30 de maio de 2012
006 - Estranha no Espelho
Dora, adorava olhar-se no espelho. Não se achava a mulher mais linda do mundo, mas passava horas experimentando roupas, e maquiagens, e cabelos. Era como se seu reflexo a absorvesse e a isolasse do mundo. Quem deparasse com a situação de relance, confirmaria o caso mais grave de narcisismo da história. Mas não era só isso. Dora tinha um brilho natural que encantava a tudo e a todos, inclusive ela mesma. Sempre que possível, saía para bares e festas com os amigos, revelando todo o seu esplendor. E seus amigos eram unânimes, homens e mulheres: "Deslumbrante!" "Um espetáculo!".
Numa manhã qualquer levantou-se como sempre, com a mesma energia e disposição. Isso até chegar em frente ao seu espelho. Olhou-se e não gostou do que viu. O problema é que não sabia porque. Era a mesma mulher que via todas as manhãs, só não exerceu o mesmo efeito sobre ela.
- Vou tomar um banho e me trocar ... Não é nada de mais, apenas acabei de acordar, oras!
Entrou no chuveiro e começou a cantarolar. Um minuto depois, já nem lembrava do reflexo daquela estranha. Banho terminado, vestiu sua roupa de trabalho e voltou para o espelho para terminar de se arrumar. E lá estava ela de novo, a estranha.
Sentiu-se mal. Tirou várias roupas do armário, jogou-as na cama e começou a experimentá-las como sempre fazia antes de sair para as festas. Mas a cada roupa que tentava, reconhecia menos aquela mulher. Não era ela! Pelo menos não era para ela mesma. No desespero, ligou para sua chefe, disse que não se sentia bem e que não poderia ir trabalhar. A chefe foi compreensiva, já que Dora não era o tipo de pessoa que inventava desculpa para fugir de trabalho. E para a própria Dora, apesar de não estar doente, ou com uma ressaca tremenda, não se sentia mentindo. Estava mal! Tinha uma estranha na sua casa, no seu corpo!
Passou mais algumas horas tentando se encontrar na frente do espelho e então desistiu.
- Estou cansada, preciso comer algo e dormir o máximo possível. Amanhã tudo volta ao normal.
Mas não voltou. Novo dia, mesma situação. E o aperto no peito foi maior. Talvez até conseguisse escapar do serviço novamente, mas isso só a faria sentir-se pior. Tomou seu banho, vestiu sua roupa, tentou fazer-se a melhor possível e foi trabalhar.
Todos no serviço a sentiram abatida, imaginando ser um resquício da doença. Porém continuavam achando-a deslumbrante. Nem em um milhão de anos conseguiriam imaginar o problema que a afligia. Por dentro, Dora estava desesperada, todo espelho que olhava, lá estava aquela mulher que nunca vira na vida. E com o passar dos dias, nada melhorava. Se possível aquele reflexo era cada vez mais estranho e incômodo.
Tomou uma medida drástica. Começou a evitar espelhos. Tirou todos da sua casa. E então, passou a cuidar-se menos e parou de sair completamente, somente pra trabalhar. Mas mesmo no trabalho, escondia-se ao máximo.
Com o tempo, ganhou peso, sua pele começou a ressecar, seu cabelo começava a parecer sujo e seus olhos perderam o brilho. Passou a viver uma vida anônima, da casa pro trabalho e do trabalho pra casa. Conversava pouco e evitava ao máximo as pessoas.
Numa tarde qualquer, voltando para casa com sempre, com o mesmo desânimo e preguiça, viu na vitrine de uma loja um belo vestido. Não era espalhafatoso e podia ser usado em qualquer ocasião. Apesar de ter comprado roupas durante a fase ruim, a muito não tinha tamanha vontade de ter uma peça. Entrou na loja, pediu para experimentar e qual foi sua surpresa quando observou-se no espelho do provador? Lá estava ela! Encontrara-se de novo! Teve vontade de chorar de alegria, mas não quis fazer uma cena. Comprou o vestido sem importar-se com o preço.
Chegou em casa e foi preparar-se. Queria sair. Sua vitalidade voltara! Não queria perder mais nenhum segundo. Preparou-se com um sorriso de orelha a orelha e ligou para todos seus amigos. Todos ficaram surpresos, é claro, mas nenhum recusou o convite de Dora.
Dora voltara a ser ela mesma novamente, feliz como sempre foi. E os amigos também ficaram felizes por ela. Apesar do consenso entre eles ser um só: "Uma pena não ser bonita, como antigamente".
terça-feira, 29 de maio de 2012
005 - Jonas
Talvez o mais estranho daquela sensação fosse a maneira como ela clareou todas as demais sensações. Gostar dela instantaneamente foi muito inesperado. A falta de lógica daquela situação foi tão óbvia que ele foi obrigado a reconhecer a falta de bases em todos os amores que teve, e aquele que ainda tinha.
Antes de estender o raciocínio, colocarei o leitor a par da situação. Jonas é o nome do sujeito, e é bom deixar claro que ele, apesar de protagonizar a história, não é o nosso herói. Não porque não existam qualidades nele que poderiam ser consideradas heroicas, mas simplesmente porque nessa história ele foi a vítima. Vítima de quem exatamente, não se pode afirmar categoricamente, isso caberá à imaginação e juízo de cada um.
Jonas estava tranquilo e há tempos não se preocupava com o coração. E se sentia bem! Julgava-se mais maduro quanto a relacionamentos, e dizia-se mais ligado nas armadilhas. Não era um grande namorador, mas todos que tiveram três ou quatro histórias envolvendo beijos e brigas se tornaram mais cautelosos e, em alguns casos, mais sábios. E então se envolveu com Carmen. Nada sério. Uns encontros aqui e acolá, todos muito tranquilos e sem a cegueira da paixonite em nenhum dos dois.
Não eram completos estranhos. Se conheciam de muito tempo, mas nunca conversaram muito. Talvez por falta de oportunidades, ou talvez porque tinham poucas coisas em comum. Jonas não se pegava pensando nela, nem imaginava um futuro real para os dois. Isso até Carmen decidir que não deveriam ficar mais juntos.
No começo não entendeu o porquê. Na sua cabeça, as explicações da moça eram desconexas e sem fundamento. Era assim que ele as chamava, pois não queria admitir que Carmen simplesmente não queria mais ficar junto dele. No começo ficou tudo muito bem na superfície. A mente de Jonas bolou uma atitude pessoal elaboradíssima, quase filosófica. Aos olhos de qualquer um parecia apenas indiferença.
A tortura começou quando os dois decidiram que ainda eram amigos e nada mais. Na visão de Jonas, as atitudes de Carmen eram indiretas para ele. Algumas tentando feri-lo e outras tentando atraí-lo de volta. Quais eram essas supostas indiretas, não vem ao caso porque não havia nada que poderia provar suas suspeitas. De uma coisa ele sabia, as suas indiretas eram reais. O que também não significava muito, já que ele não conseguia dizer se elas atingiram seus objetivos.
Essa situação prolongou-se por alguns meses. Não crescia, nem diminuía. Somente incomodava. Jonas pensou várias vezes em dizer algumas "verdades" para Carmen, mas sempre percebia uma irracionalidade nesse tipo de atitude. Não entrarei a fundo na amargura de Jonas por dois motivos: primeiro porque faltariam palavras; e segundo porque, se eu conheço um pouco do coração das pessoas, já imagino que o leitor identificou-se com nosso protagonista e conhece um pouco essa situação.
E então sim, aparece nossa heroína! E sua aparição é rápida como de um super-herói mesmo: chega sem sabermos quem é, faz seu trabalho e só reconhecemos o heroísmo quando já não é possível agradecer, pois o herói se foi.
Jonas a conheceu em uma festa, foi apresentado a ela, Rafaela, e em cinco minutos estava fascinado. Fascinado com o que é impossível descrever. Por alguns instantes ele acreditou que havia uma química muito forte entre os dois. De súbito, tomou uma atitude, e justo uma que não era seu estilo. Pediu-lhe um beijo. E foi aí que nossa heroína o salvou. Rafaela disse não, e com um sorriso no rosto saiu. Jonas não voltou a vê-la.
Por uns instantes se sentiu bobo e burro por agir daquela maneira. Mas depois tudo foi se encaixando. Não estava gostando de Rafaela. Estava gostando de gostar, e estava gostando de ter esquecido Carmen naquele momento. E então percebeu que também não gostava de Carmen, que todo aquele sentimento que sentiu por ela era vazio de fundamento e de realidade. Carmen era uma boa pessoa, só não era quem ele queria.
E essa é a história de como Jonas teve seu coração resgatado. Resgatado de um lugar que ele não soube como chegou, por alguém que ele não sabe quem é.
Agora ele está livre e tranquilo de novo.
quarta-feira, 21 de dezembro de 2011
004 - A pinta
De repente reparou em algo estranho. Um pouco acima da sombrancelha direita, tendendo para a orelha, havia uma pinta. Olhou por alguns minutos como se tentasse recordar. Logo concluiu que não tinha aquela pinta antes.
De princípio encarou como se ela tivesse aparecido recentemente. Mas não conseguia parar de olhar o espelho, de olhar aquela pinta. Não demorou muito para começar a questionar se era realmente nova. E aquela rápida olhada no espelho de quem já está de saída foi prolongada. Ele queria mesmo era ter uma foto por perto e acabar logo com a dúvida. Mas não tinha. Nem a foto, nem outra idéia para saber se a pinta era nova. Olhou mais uns minutos. Virava o rosto, chegava perto e se afastava do espelho esperando um flash de memória.
- Ora, que besteira! É só uma pintinha insignificante! Tenho mais o que fazer!
Foi até sua escrivaninha, pegou suas chaves e foi em direção à porta. Parou. Olhou o espelho novamente, por mais alguns minutos. Então veio o flash tão desejado:
- Oh claro! Ela sempre esteve aí! Debaixo da minha cicatriz!
A cicatriz era pouco maior que a pinta, mas dela ele lembrava bem. Na infância, caiu de bicicleta num chão de terra e ralou a testa.
Então deu uma risada. Lembrou que, quando era criança, achava a cicatriz grande e que teria ela pra sempre. Realmente ainda tinha, mas era tão insignificante quanto a pinta.
Ficou sorrindo e olhando o espelho mais um pouco. Ficou sério:
- Será mesmo que essa pinta sempre esteve aí?
Mais uns minutos e seu telefone tocou. Era um colega do emprego para quem sempre dava carona. Perguntou se ele viria. Disse que ocorrera um problema e já estava indo. Não queria falar o porquê do atraso. Rapidamente saiu de casa. Rapidamente esqueceu-se da pinta. E voltou a viver a vida sem que ela fosse uma preocupação.
Um dia, de repente, reparou em algo estranho. Do lado direito do rosto, um pouco acima da sua pinta de nascença, havia uma cicatriz.
De princípio encarou como se ela tivesse aparecido recentemente. Mas não conseguia parar de olhar o espelho, de olhar aquela pinta. Não demorou muito para começar a questionar se era realmente nova. E aquela rápida olhada no espelho de quem já está de saída foi prolongada. Ele queria mesmo era ter uma foto por perto e acabar logo com a dúvida. Mas não tinha. Nem a foto, nem outra idéia para saber se a pinta era nova. Olhou mais uns minutos. Virava o rosto, chegava perto e se afastava do espelho esperando um flash de memória.
- Ora, que besteira! É só uma pintinha insignificante! Tenho mais o que fazer!
Foi até sua escrivaninha, pegou suas chaves e foi em direção à porta. Parou. Olhou o espelho novamente, por mais alguns minutos. Então veio o flash tão desejado:
- Oh claro! Ela sempre esteve aí! Debaixo da minha cicatriz!
A cicatriz era pouco maior que a pinta, mas dela ele lembrava bem. Na infância, caiu de bicicleta num chão de terra e ralou a testa.
Então deu uma risada. Lembrou que, quando era criança, achava a cicatriz grande e que teria ela pra sempre. Realmente ainda tinha, mas era tão insignificante quanto a pinta.
Ficou sorrindo e olhando o espelho mais um pouco. Ficou sério:
- Será mesmo que essa pinta sempre esteve aí?
Mais uns minutos e seu telefone tocou. Era um colega do emprego para quem sempre dava carona. Perguntou se ele viria. Disse que ocorrera um problema e já estava indo. Não queria falar o porquê do atraso. Rapidamente saiu de casa. Rapidamente esqueceu-se da pinta. E voltou a viver a vida sem que ela fosse uma preocupação.
Um dia, de repente, reparou em algo estranho. Do lado direito do rosto, um pouco acima da sua pinta de nascença, havia uma cicatriz.
terça-feira, 20 de dezembro de 2011
003 - Pipeiro
Gostava mesmo é de soltar pipa. Às vezes jogava bolinha de gude, rodava pião e sempre jogava bola com a turma. Mas nada o deixava mais feliz que soltar pipa.
E não era só bom de empinar não. Fazia pipas maravilhosas. Desenhava nelas, misturava cores, pendurava pequenos soldados de para-quedas na rabiola. E ainda assinava, como se fosse uma obra de arte. Personalizava até a latinha para a linha.
Ia para o pasto, preparava tudo e então corria. Corria feito um doido para a pipa subir. Sabia que não precisava de tudo aquilo para colocá-la no ar, mas adorava toda a encenação que fazia. E com ela no ar, era um verdadeiro piloto. Dava meias luas, girava no eixo, quebrava a subida. Era como assistir um avião.
Sempre que podia voltava ao pasto, mesmo que sozinho. E não respodia direito quando estava empinando. Ficava hipnotizado, extasiado por horas à fio. Sua mãe nem se preocupava mais quando ele passava um pouco da hora. Sabia exatamente onde estava.
E todos diziam:
- Ah, esse menino já tem destino. Vai ser é piloto de avião, quem sabe até astronauta!
E a mãe sempre respondia com um riso leve:
- Até parece! Morre de medo de altura, o coitadinho.
A mãe sabia. Ele soltava pipa porque era o mais perto que chegaria de voar.
E não era só bom de empinar não. Fazia pipas maravilhosas. Desenhava nelas, misturava cores, pendurava pequenos soldados de para-quedas na rabiola. E ainda assinava, como se fosse uma obra de arte. Personalizava até a latinha para a linha.
Ia para o pasto, preparava tudo e então corria. Corria feito um doido para a pipa subir. Sabia que não precisava de tudo aquilo para colocá-la no ar, mas adorava toda a encenação que fazia. E com ela no ar, era um verdadeiro piloto. Dava meias luas, girava no eixo, quebrava a subida. Era como assistir um avião.
Sempre que podia voltava ao pasto, mesmo que sozinho. E não respodia direito quando estava empinando. Ficava hipnotizado, extasiado por horas à fio. Sua mãe nem se preocupava mais quando ele passava um pouco da hora. Sabia exatamente onde estava.
E todos diziam:
- Ah, esse menino já tem destino. Vai ser é piloto de avião, quem sabe até astronauta!
E a mãe sempre respondia com um riso leve:
- Até parece! Morre de medo de altura, o coitadinho.
A mãe sabia. Ele soltava pipa porque era o mais perto que chegaria de voar.
002 - Lembra do seu primeiro beijo?

Esses dias estava olhando um monte de fotos antigas e me bateu uma saudade. De que exatamente eu não sei, mas sei que foi forte. Acho que é saudade da simplicidade, se bem que naquela época não era nada simples.
Talvez seja a facilidade. Quero dizer, até as coisas que me preocupavam seriamente eram,no fundo, agradáveis. Ou talvez lá atrás eu não tivesse consciência real das minhas responsabilidades e das consequências dos meus atos.
Lembro do meu primeiro beijo. Uma situação nervosa, uma apreensão terrível. Medo de que não acontecesse, medo de fazer errado. Medo de ser precipitado, de estar confundindo as coisas. Vontade de parar o tempo e pensar detalhe por detalhe, cobrir todas as possibilidades. É como uma injeção de adrenalina. E todos aqueles sentimentos que te dão frio na barriga não irão embora até que aconteça. Você não sabe porquê, mas sabe que é verdade, que é assim que as coisas são.
E então, quando acontece, é como se você soubesse o tempo todo. Como se aquilo fizesse parte de você a sua vida toda. E é libertador também. Traz uma felicidade espontânea. Não é o beijo que te faz feliz, é a maneira como tudo sincroniza ao seu redor, como se tudo tivesse se resolvido. E essa sensação extende além do beijo, além da festa, além da presença de quem te beijou.
Mas como todo o resto, passa. Talvez buscar amor verdadeiro não tenha nada a ver com buscar a pessoa perfeita, a pessoa que nos complete, que nos faça feliz. Talez seja uma procura pra repetir essa sensação. E todos os defeitos que colocamos nos outros como razão de nos separar, seja simplesmente uma desculpa para continuar procurando.
Lá no fundo mesmo, eu não acredito em nada disso.
Ah, mas como seria bom viver aquele momento de novo ...
segunda-feira, 19 de dezembro de 2011
001 - O Abajur
Depois do almoço, resolveu dar uma passada numa loja vizinha do escritório onde trabalhava e procurar um abajur de cabeceira , já que gostava muito de ler e detestava ter que levantar para apagar a luz do quarto. Tinha pouco tempo até a hora de retomar o serviço, mas sempre que ela deixava pra depois do trabalho, acabava por esquecer devido ao cansaço e só se lembrava quando ia deitar-se e ler um pouco antes de dormir. E além do mais, parecia uma tarefa simples o suficiente.
Deu uma olhada bem rápida e já estava preparada pra comprar um qualquer, quando o viu. Deu um sorriso involuntário e correu em sua direção. Era o abajur mais lindo que vira na vida. As partes de vidro que cobriam a lâmpada eram moldadas quase como flores e se dividiam com contornos dourados de metal. Sua base era branca de formas simples, mas com gravuras de rosas pintadas extremamente encantadoras. Era de tamanho discreto e perfeito para seu criado-mudo.
Ficou um tempo admirando o abajur em suas mãos. Tempo até demais. Já devia estar no escritório. Colocou o abajur num canto escondido das prateleiras dos abajures para que ninguém comprasse até que saísse do trabalho. Prateleira debaixo, entre um abajur verde e um cinza. Correu para o escritório e teve a sorte de conseguir chegar antes de ter sua falta notada pelo chefe.
Foi um dia difícil. Muitos documentos para lidar, muita burocracia e muita gente telefonando. Mas desta vez o cansaço não a fez esquecer o abajur. E lembrou-se não pela necessidade de ter um abajur, mas porque era o abajur mais lindo que vira na vida.
No fim do expediente entrou correndo na loja direto nas prateleiras dos abajures. Parou em frente à vários deles. Parou e ficou parada. Não se lembrava onde havia deixado.
- Ora, não importa. Sei reconhecer fácil! É o abajur mais lindo que já vi na vida!
Mas não reconheceu. Passou três vezes por todos eles cuidadosamente e nada. Demorou uns vinte minutos e foi vencida pelo cansaço. Resolveu pegar um branco da prateleira de baixo, entre um verde e um cinza. Voltou pra casa frustrada por ter perdido tanto tempo para escolher uma peça tão simples.
À noite, já deitada em sua cama, ao final da leitura à luz de seu novo abajur, olhou pra ele e pensou:
- Devem ter comprado o que eu queria. Afinal, era o abajur mais lindo que já vi na vida. Não ia durar na prateleira.
Apagou a luz e foi dormir.
Deu uma olhada bem rápida e já estava preparada pra comprar um qualquer, quando o viu. Deu um sorriso involuntário e correu em sua direção. Era o abajur mais lindo que vira na vida. As partes de vidro que cobriam a lâmpada eram moldadas quase como flores e se dividiam com contornos dourados de metal. Sua base era branca de formas simples, mas com gravuras de rosas pintadas extremamente encantadoras. Era de tamanho discreto e perfeito para seu criado-mudo.
Ficou um tempo admirando o abajur em suas mãos. Tempo até demais. Já devia estar no escritório. Colocou o abajur num canto escondido das prateleiras dos abajures para que ninguém comprasse até que saísse do trabalho. Prateleira debaixo, entre um abajur verde e um cinza. Correu para o escritório e teve a sorte de conseguir chegar antes de ter sua falta notada pelo chefe.
Foi um dia difícil. Muitos documentos para lidar, muita burocracia e muita gente telefonando. Mas desta vez o cansaço não a fez esquecer o abajur. E lembrou-se não pela necessidade de ter um abajur, mas porque era o abajur mais lindo que vira na vida.
No fim do expediente entrou correndo na loja direto nas prateleiras dos abajures. Parou em frente à vários deles. Parou e ficou parada. Não se lembrava onde havia deixado.
- Ora, não importa. Sei reconhecer fácil! É o abajur mais lindo que já vi na vida!
Mas não reconheceu. Passou três vezes por todos eles cuidadosamente e nada. Demorou uns vinte minutos e foi vencida pelo cansaço. Resolveu pegar um branco da prateleira de baixo, entre um verde e um cinza. Voltou pra casa frustrada por ter perdido tanto tempo para escolher uma peça tão simples.
À noite, já deitada em sua cama, ao final da leitura à luz de seu novo abajur, olhou pra ele e pensou:
- Devem ter comprado o que eu queria. Afinal, era o abajur mais lindo que já vi na vida. Não ia durar na prateleira.
Apagou a luz e foi dormir.
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