De repente reparou em algo estranho. Um pouco acima da sombrancelha direita, tendendo para a orelha, havia uma pinta. Olhou por alguns minutos como se tentasse recordar. Logo concluiu que não tinha aquela pinta antes.
De princípio encarou como se ela tivesse aparecido recentemente. Mas não conseguia parar de olhar o espelho, de olhar aquela pinta. Não demorou muito para começar a questionar se era realmente nova. E aquela rápida olhada no espelho de quem já está de saída foi prolongada. Ele queria mesmo era ter uma foto por perto e acabar logo com a dúvida. Mas não tinha. Nem a foto, nem outra idéia para saber se a pinta era nova. Olhou mais uns minutos. Virava o rosto, chegava perto e se afastava do espelho esperando um flash de memória.
- Ora, que besteira! É só uma pintinha insignificante! Tenho mais o que fazer!
Foi até sua escrivaninha, pegou suas chaves e foi em direção à porta. Parou. Olhou o espelho novamente, por mais alguns minutos. Então veio o flash tão desejado:
- Oh claro! Ela sempre esteve aí! Debaixo da minha cicatriz!
A cicatriz era pouco maior que a pinta, mas dela ele lembrava bem. Na infância, caiu de bicicleta num chão de terra e ralou a testa.
Então deu uma risada. Lembrou que, quando era criança, achava a cicatriz grande e que teria ela pra sempre. Realmente ainda tinha, mas era tão insignificante quanto a pinta.
Ficou sorrindo e olhando o espelho mais um pouco. Ficou sério:
- Será mesmo que essa pinta sempre esteve aí?
Mais uns minutos e seu telefone tocou. Era um colega do emprego para quem sempre dava carona. Perguntou se ele viria. Disse que ocorrera um problema e já estava indo. Não queria falar o porquê do atraso. Rapidamente saiu de casa. Rapidamente esqueceu-se da pinta. E voltou a viver a vida sem que ela fosse uma preocupação.
Um dia, de repente, reparou em algo estranho. Do lado direito do rosto, um pouco acima da sua pinta de nascença, havia uma cicatriz.
Nenhum comentário:
Postar um comentário