quarta-feira, 30 de maio de 2012

006 - Estranha no Espelho

Dora, adorava olhar-se no espelho. Não se achava a mulher mais linda do mundo, mas passava horas experimentando roupas, e maquiagens, e cabelos. Era como se seu reflexo a absorvesse e a isolasse do mundo. Quem deparasse com a situação de relance, confirmaria o caso mais grave de narcisismo da história. Mas não era só isso. Dora tinha um brilho natural que encantava a tudo e a todos, inclusive ela mesma. Sempre que possível, saía para bares e festas com os amigos, revelando todo o seu esplendor. E seus amigos eram unânimes, homens e mulheres: "Deslumbrante!" "Um espetáculo!".

Numa manhã qualquer levantou-se como sempre, com a mesma energia e disposição. Isso até chegar em frente ao seu espelho. Olhou-se e não gostou do que viu. O problema é que não sabia porque. Era a mesma mulher que via todas as manhãs, só não exerceu o mesmo efeito sobre ela.

- Vou tomar um banho e me trocar ... Não é nada de mais, apenas acabei de acordar, oras!

Entrou no chuveiro e começou a cantarolar. Um minuto depois, já nem lembrava do reflexo daquela estranha. Banho terminado, vestiu sua roupa de trabalho e voltou para o espelho para terminar de se arrumar. E lá estava ela de novo, a estranha.
Sentiu-se mal. Tirou várias roupas do armário, jogou-as na cama e começou a experimentá-las como sempre fazia antes de sair para as festas. Mas a cada roupa que tentava, reconhecia menos aquela mulher. Não era ela! Pelo menos não era para ela mesma. No desespero, ligou para sua chefe, disse que não se sentia bem e que não poderia ir trabalhar. A chefe foi compreensiva, já que Dora não era o tipo de pessoa que inventava desculpa para fugir de trabalho. E para a própria Dora, apesar de não estar doente, ou com uma ressaca tremenda, não se sentia mentindo. Estava mal! Tinha uma estranha na sua casa, no seu corpo!

Passou mais algumas horas tentando se encontrar na frente do espelho e então desistiu.

- Estou cansada, preciso comer algo e dormir o máximo possível. Amanhã tudo volta ao normal.

Mas não voltou. Novo dia, mesma situação. E o aperto no peito foi maior. Talvez até conseguisse escapar do serviço novamente, mas isso só a faria sentir-se pior. Tomou seu banho, vestiu sua roupa, tentou fazer-se a melhor possível e foi trabalhar.

Todos no serviço a sentiram abatida, imaginando ser um resquício da doença. Porém continuavam achando-a deslumbrante. Nem em um milhão de anos conseguiriam imaginar o problema que a afligia. Por dentro, Dora estava desesperada, todo espelho que olhava, lá estava aquela mulher que nunca vira na vida. E com o passar dos dias, nada melhorava. Se possível aquele reflexo era cada vez mais estranho e incômodo.

Tomou uma medida drástica. Começou a evitar espelhos. Tirou todos da sua casa. E então, passou a cuidar-se menos e parou de sair completamente, somente pra trabalhar. Mas mesmo no trabalho, escondia-se ao máximo.

Com o tempo, ganhou peso, sua pele começou a ressecar, seu cabelo começava a parecer sujo e seus olhos perderam o brilho. Passou a viver uma vida anônima, da casa pro trabalho e do trabalho pra casa. Conversava pouco e evitava ao máximo as pessoas.

Numa tarde qualquer, voltando para casa com sempre, com o mesmo desânimo e preguiça, viu na vitrine de uma loja um belo vestido. Não era espalhafatoso e podia ser usado em qualquer ocasião. Apesar de ter comprado roupas durante a fase ruim, a muito não tinha tamanha vontade de ter uma peça. Entrou na loja, pediu para experimentar e qual foi sua surpresa quando observou-se no espelho do provador? Lá estava ela! Encontrara-se de novo! Teve vontade de chorar de alegria, mas não quis fazer uma cena. Comprou o vestido sem importar-se com o preço.

Chegou em casa e foi preparar-se. Queria sair. Sua vitalidade voltara! Não queria perder mais nenhum segundo. Preparou-se com um sorriso de orelha a orelha e ligou para todos seus amigos. Todos ficaram surpresos, é claro, mas nenhum recusou o convite de Dora.

Dora voltara a ser ela mesma novamente, feliz como sempre foi. E os amigos também ficaram felizes por ela. Apesar do consenso entre eles ser um só: "Uma pena não ser bonita, como antigamente".

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