Talvez o mais estranho daquela sensação fosse a maneira como ela clareou todas as demais sensações. Gostar dela instantaneamente foi muito inesperado. A falta de lógica daquela situação foi tão óbvia que ele foi obrigado a reconhecer a falta de bases em todos os amores que teve, e aquele que ainda tinha.
Antes de estender o raciocínio, colocarei o leitor a par da situação. Jonas é o nome do sujeito, e é bom deixar claro que ele, apesar de protagonizar a história, não é o nosso herói. Não porque não existam qualidades nele que poderiam ser consideradas heroicas, mas simplesmente porque nessa história ele foi a vítima. Vítima de quem exatamente, não se pode afirmar categoricamente, isso caberá à imaginação e juízo de cada um.
Jonas estava tranquilo e há tempos não se preocupava com o coração. E se sentia bem! Julgava-se mais maduro quanto a relacionamentos, e dizia-se mais ligado nas armadilhas. Não era um grande namorador, mas todos que tiveram três ou quatro histórias envolvendo beijos e brigas se tornaram mais cautelosos e, em alguns casos, mais sábios. E então se envolveu com Carmen. Nada sério. Uns encontros aqui e acolá, todos muito tranquilos e sem a cegueira da paixonite em nenhum dos dois.
Não eram completos estranhos. Se conheciam de muito tempo, mas nunca conversaram muito. Talvez por falta de oportunidades, ou talvez porque tinham poucas coisas em comum. Jonas não se pegava pensando nela, nem imaginava um futuro real para os dois. Isso até Carmen decidir que não deveriam ficar mais juntos.
No começo não entendeu o porquê. Na sua cabeça, as explicações da moça eram desconexas e sem fundamento. Era assim que ele as chamava, pois não queria admitir que Carmen simplesmente não queria mais ficar junto dele. No começo ficou tudo muito bem na superfície. A mente de Jonas bolou uma atitude pessoal elaboradíssima, quase filosófica. Aos olhos de qualquer um parecia apenas indiferença.
A tortura começou quando os dois decidiram que ainda eram amigos e nada mais. Na visão de Jonas, as atitudes de Carmen eram indiretas para ele. Algumas tentando feri-lo e outras tentando atraí-lo de volta. Quais eram essas supostas indiretas, não vem ao caso porque não havia nada que poderia provar suas suspeitas. De uma coisa ele sabia, as suas indiretas eram reais. O que também não significava muito, já que ele não conseguia dizer se elas atingiram seus objetivos.
Essa situação prolongou-se por alguns meses. Não crescia, nem diminuía. Somente incomodava. Jonas pensou várias vezes em dizer algumas "verdades" para Carmen, mas sempre percebia uma irracionalidade nesse tipo de atitude. Não entrarei a fundo na amargura de Jonas por dois motivos: primeiro porque faltariam palavras; e segundo porque, se eu conheço um pouco do coração das pessoas, já imagino que o leitor identificou-se com nosso protagonista e conhece um pouco essa situação.
E então sim, aparece nossa heroína! E sua aparição é rápida como de um super-herói mesmo: chega sem sabermos quem é, faz seu trabalho e só reconhecemos o heroísmo quando já não é possível agradecer, pois o herói se foi.
Jonas a conheceu em uma festa, foi apresentado a ela, Rafaela, e em cinco minutos estava fascinado. Fascinado com o que é impossível descrever. Por alguns instantes ele acreditou que havia uma química muito forte entre os dois. De súbito, tomou uma atitude, e justo uma que não era seu estilo. Pediu-lhe um beijo. E foi aí que nossa heroína o salvou. Rafaela disse não, e com um sorriso no rosto saiu. Jonas não voltou a vê-la.
Por uns instantes se sentiu bobo e burro por agir daquela maneira. Mas depois tudo foi se encaixando. Não estava gostando de Rafaela. Estava gostando de gostar, e estava gostando de ter esquecido Carmen naquele momento. E então percebeu que também não gostava de Carmen, que todo aquele sentimento que sentiu por ela era vazio de fundamento e de realidade. Carmen era uma boa pessoa, só não era quem ele queria.
E essa é a história de como Jonas teve seu coração resgatado. Resgatado de um lugar que ele não soube como chegou, por alguém que ele não sabe quem é.
Agora ele está livre e tranquilo de novo.
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