Depois do almoço, resolveu dar uma passada numa loja vizinha do escritório onde trabalhava e procurar um abajur de cabeceira , já que gostava muito de ler e detestava ter que levantar para apagar a luz do quarto. Tinha pouco tempo até a hora de retomar o serviço, mas sempre que ela deixava pra depois do trabalho, acabava por esquecer devido ao cansaço e só se lembrava quando ia deitar-se e ler um pouco antes de dormir. E além do mais, parecia uma tarefa simples o suficiente.
Deu uma olhada bem rápida e já estava preparada pra comprar um qualquer, quando o viu. Deu um sorriso involuntário e correu em sua direção. Era o abajur mais lindo que vira na vida. As partes de vidro que cobriam a lâmpada eram moldadas quase como flores e se dividiam com contornos dourados de metal. Sua base era branca de formas simples, mas com gravuras de rosas pintadas extremamente encantadoras. Era de tamanho discreto e perfeito para seu criado-mudo.
Ficou um tempo admirando o abajur em suas mãos. Tempo até demais. Já devia estar no escritório. Colocou o abajur num canto escondido das prateleiras dos abajures para que ninguém comprasse até que saísse do trabalho. Prateleira debaixo, entre um abajur verde e um cinza. Correu para o escritório e teve a sorte de conseguir chegar antes de ter sua falta notada pelo chefe.
Foi um dia difícil. Muitos documentos para lidar, muita burocracia e muita gente telefonando. Mas desta vez o cansaço não a fez esquecer o abajur. E lembrou-se não pela necessidade de ter um abajur, mas porque era o abajur mais lindo que vira na vida.
No fim do expediente entrou correndo na loja direto nas prateleiras dos abajures. Parou em frente à vários deles. Parou e ficou parada. Não se lembrava onde havia deixado.
- Ora, não importa. Sei reconhecer fácil! É o abajur mais lindo que já vi na vida!
Mas não reconheceu. Passou três vezes por todos eles cuidadosamente e nada. Demorou uns vinte minutos e foi vencida pelo cansaço. Resolveu pegar um branco da prateleira de baixo, entre um verde e um cinza. Voltou pra casa frustrada por ter perdido tanto tempo para escolher uma peça tão simples.
À noite, já deitada em sua cama, ao final da leitura à luz de seu novo abajur, olhou pra ele e pensou:
- Devem ter comprado o que eu queria. Afinal, era o abajur mais lindo que já vi na vida. Não ia durar na prateleira.
Apagou a luz e foi dormir.
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